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Edição de Março (17.03.09)

17:44 Autor: Alexandre Nonato Cat.: Atualidades Comentários (0)

Olá a todos,

Esta é a primeira edição do Blog da Invéxis que será um espaço para reflexões, análises, críticas a respeito da sociedade em que vivemos, sempre com temas pertinantes aos praticantes da técnica da invéxis e demais interessados na Invexologia. O objetivo é discutir diversos temas relacionados à sociedade, comportamento, ética e moral, profissões, política, economia, enfim, estimularemos o senso crítico, o princípio da descrença, sem paixões partidárias, ideológicas e dogmáticas. Este espaço também vai trazer, sempre que possível sugestões e dicas de filmes, livros e cursos.

Em princípio, vamos começar com edições quinzenais até que todos os ajustes iniciais sejam feitos para que possamos fazer edições semanais. Esta edição seria publicada já na primeira semana de março, porém, por problemas técnicos não foi possível.

A edição, portanto, trata de temas ocorridos no final de fevereiro e no começo deste mês. Acredito que sejam válidas ainda estas estas considerações abaixo pois são temas freqüentemente debatidos na mídia, nas universidades, sem consensos.

Os artigos aqui postados tem um caráter mais informal, semelhante aos artigos opinativos de colunistas de jornais, revistas e muitos blogs jornalísticos. Não representam necessariamente a opinião de todos os voluntários da ASSINVÉXIS. Tudo o que for postado aqui é de inteira responsabilidade de seus respectivos autores. Este espaço é aberto a participação de todos, desde que os artigos enviados sejam convergentes com a proposta deste blog.

Nesta edição trouxemos três temas polêmicos: os trotes universitários, os pseudobenefícios do vinho e o aborto. No último caso, foram feitas algumas considerações sobre o caso da menina de 9 anos que tanto foi debatido na mídia. Sobre o vinho, trouxemos uma pesquisa realizada na França que mostra os problemas das bebidas alcoólicas, inclusive do vinho, tido socialmente como “benéfico” à saúde. Temos também nestta edição algumas considerações sobre os trotes solidários ou cidadãos. E por último, uma resenha sobre o livro Biografias & Biógrafos, de Sérgio Vilas Boas.

Até a próxima edição!
Alexandre Nonato

Existe Trote Solidário ou Cidadão?

17:35 Autor: Alexandre Nonato Cat.: Atualidades Comentários (0)

Há um bom tempo venho polemizando nos debates sobre Invexologia a idéia de que não existe trote solidário ou cidadão. Desde já, deixo bem claro que não sou contra festas, gincanas e atividades envolvendo práticas de caridade aos calouros nas universidades. Mas chamar algumas destas recepções alternativas de “trote” é uma incoerência e um erro crasso.

Quando afirmo que não há “trote solidário” ou “trote cidadão”, me refiro a incompatibilidade das duas expressões, do mesmo modo que não existe “ditadura democrática”, “cocaína saudável” ou “estupro prazeroso”.

Historicamente a expressão deriva do alemão trotton que significa “cavalgar a trote”, “andar (montaria) entre o passo e o galope”. O termo passou a ser utilizado para ocorrências de humilhações de pessoas que fugiam trotando como cavalos. Na Idade Média, muitas pessoas eram humilhadas em praça pública, quando consideradas imorais, até que conseguissem escapar fugindo. Nas primeiras universidadess da Europa, o trote era uma atividade comum, por exemplo, muitos calouros tinham seus quartos invadidos e seus pertences roubados (especialmente livros especializados, que na época eram muito valiosos). Na Espanha, o trote é chamado de novatada e em Portugal de praxe.

O trote tem uma influência da cultura militar, em que o mais forte manda e o mais fraco obedece, senão é castigado sem piedade. Se formos considerar o paradigma consciencial, a evocação de consciexes com este holopensene, assediadoras, baratrosféricas, é inevitável, potencializando geometricamente as reações de veteranos em recepções aos calouros (em festas movidas a álcool e outras drogas).

Por isto, não é raro nos deparar com notícias de abusos, ferimentos graves e mortes veiculadas na mídia a cada início de semestre. Por exemplo, em 2009, os casos da estudante de Santa Fé do Sul (SP) que foi acusada de ter queimado uma caloura grávida usando uma mistura líquida; dos veteranos de medicina veterinária da universidade Anhanguera, em Leme (SP) que obrigaram calouros a rolar em uma lona com fezes, esterco e restos de animais em decomposição; das “brincadeiras” violentas contras estudantes ingressos nos cursos de Psicologia, Veterinária e Direito identificados pela direção da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Todos estes casos foram mostrados através da imprensa e podem ser encontrados na internet. O caso mais notório foi do estudante de medicina, Edson Tsung Chi Hsueh, que morreu afogado durante um trote na USP em fevereiro de 1999.

É ilusão pensarmos que o trote solidário ou cidadão (na verdade, o correto seria recepção cidadã ou solidária) substitui o trote convencional. Em muitas universidades as duas atividades ocorrem simultaneamente. O que começa como confraternização, muitas vezes, termina com humilhações e, por incrível que pareça, com o consentimento e aprovação de muitos calouros. Daí podemos concluir que muitos calouros nem sempre são “vítimas” e admitem participar de tudo volutariamente e plenamente ciente das conseqüências.

A meu ver, a manutenção das expressões “trote  solidário” e “trote cidadão” alimenta a idéia romântica de que tudo pode ser mudado se não houver excesso e se mudarmos um pouco o foco. Este raciocínio é uma grande bobagem! Trote é trote. Recepção cidadã ou solidária tem outro objetivo. Se continuarmos minimizando estas ocorrências, colocando maquiagens semânticas, ainda veremos muitos casos de ferimentos, humilhações e mortes nos próximos anos. Trote é crime.

Que bom que tenhamos recepções que incentivam a doção de sangue, de alimentos, materiais escolares; atividades que estimulem a cidadania e o voluntariado; as festas que tratam todos com respeito. Mas não misturemos mais isto com o trote, que é um rito cultural, violento, criminoso e dispensável.

Vinho faz bem a saúde?

17:27 Autor: Alexandre Nonato Cat.: Atualidades Comentários (0)

Em fevereiro de 2009, a Agência Estado publicou um estudo do Instituto Nacional do Câncer da França (divulgado pela mídia) que conclui que bebidas alcóolicas , em qualquer medida, podem provocar câncer (de boca, faringe, laringe, esdôfago, colo-retal, sangue e fígado). O relatório descarta até mesmo a ingestão diária de pequenas doses, por exemplo, uma taça de vinho, culturalmente “recomendada” em muitos países, inclusive o Brasil.

A falácia de que o vinho faz bem a saúde se baseia no argumento de que traria benefícios ao coração, em pequenas doses. Porém, sabe-se que o que faz bem ao coração é a uva, um dos componentes do vinho, e não a bebida em si. Neste caso, se o raciocínio é prevenir doenças cardíacas, o mais indicado é o consumo de suco de uva ao invés do vinho.

Vale enfatizar que a indústria do álcool, incluindo a do vinho, tem buscado relativizar seus efeitos prejudiciais a saúde através de matérias pegas na mídia impressa e televisiva. Também tem patrocinado Congressos científicos de Cardiologia e áreas afins, financiando pesquisas “favoráveis” ao consumo do vinho ou que minimizem seus efeitos.

A indústria do vinho gera milhares de empregos e movimenta tantos negócios que até possui curso universitário específico. Aqui mesmo, no Brasil, existem cursos de gradução e especialização em vinhos. Os profissionais aprendem a história do vinho, os tipos de vinhos adequados aos diversos pratos, como é produzido um vinho, como conservar e servir a bebida etc. O profissional formado é prontamente requisitado por restaurantes e hotéis de luxoi, ganhando um excelente salário para a realidade brasileira.

Este tema exige senso crítico do praticante da invéxis, pois há inúmeras pesquisas científicas contraditórias quando comparadas umas com as outras, Infelizmente, nenhum instituto, órgão ou pesquisador está isento de interesse. Resta ao praticante da invéxis estudar, ler, debater e tirar as próprias conclusões, evitando apriorismos e análise superficial dos fatos.

Para quem deseja saber mais, abaixo segue o endereço do Institut National du Cancer e umas das notícias publicada publicadas no Brasil.

http://www.e-cancer.fr/

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/02/18/instituto+frances+diz+que+ate+uma+taca+de+vinho+diaria+causa+cancer+4137935.html

Nova polêmica sobre o aborto

16:55 Autor: Alexandre Nonato Cat.: Atualidades Comentários (37544)

Aqui no Brasil, todos devem ter acompanhado o caso de uma menina de 9 anos de idade de foi estuprada, ficando grávida de gêmeos e mais tarde abortando com o aval da Justiça e do Estado, que se pronunciaram favoráveis ao procedimento.

Já que este blog é acessado por pessoas fora do Brasil (inclusive brasileiros), vou fazer um breve resumo do caso antes de fazer algumas reflexões.

Esta garota, de Alagoinha (a 230 km de Recife, PE), fez aborto no dia 04 de março de 2009. A suspeita é que o padrasto tenha engravidado a menina. A gravidez foi interrompida no Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (da Universidade de Pernambuco). No Brasil o aborto é autorizado na legislação em casos de esturpro e o risco de morte para a mãe. O suspeito do crime, um rapaz de 23 anos, mantinha relações sexuais com a meninas há cerca de três anos.

Mas o problema na parou por aí. No dia 06 de março, o Arcebispo de Recife e Olinda (PE), Dom José Cardoso Sobrinho, condenou o “crime”. A violência contra a garota? Não, o aborto. E ainda decidiu excomungar os responsáveis por este “ato bárbaro”. O padastro? Não, a equipe médica que realizou o aborto, amparada pela Constituição Federal, e mãe da garota. O padrasto não foi excomungado. E ainda, o arcebispo argumenta: “o aborto é um crime mais grave do que um estupro”.

Ora, não é de se estranhar que a igreja católica tenha esta opinião. Afinal de contas existem centenas de acusações, no mundo inteiro (inclusive no Brasil), de pedofilia envolvendo padres e outras autoridades católicas. Pedofilia consumada também é estupro. Logo, se condenassem o estupro estariam condenando a própria igreja católica. Neste blog não acusamos ninguém, qualquer um pode verificar nos arquivos de jornais e revistas, na internet, as acusações contra a igreja católica, muitas delas já confessadas pelos padres. São tantas que é dispensável mostrar aqui uma a uma.

Muitos chamam as autoridades da igreja católica de hipócritas. Na verdade, é muito pior do que isto. Adota-se um discurso cínico, como este acima, em que a mulher ainda continua sendo a culpada por todos os “pecados” cometidos pelos homens.

Outro ponto que merece reflexão é o fato da mulher não ter o direito em relação ao próprio corpo. Não se trata aqui apenas do caso desta menina. Mas o fato é que uma mulher, que não deseja a gravidez, tem menos direitos do que um Ser ainda constituição, que ainda não nasceu. Em outras palavras a opinião e a posição de uma mulher vale menos do que o feto que ela gera. Será isto tem alguma lógica? Não é estranho pensar que uma mulher tem direito a educação, saúde, moradia, respeito, emprego, mas não tem sobre o próprio corpo?

Não se trata aqui de fazer apologia ao aborto. Há muitos casos excessivos e sabemos inclusive os problemas físicos e psicológicos que isto pode causar para o resto da vida. Esta decisão deveria envolver não apenas o casal, mas um acompanhamento especializado de médicos, psicólogos e assistentes sociais para que a decisão fosse tomada com mais maturidade, priorizando os casos extremos. Enquanto isto, a sociedade prefere fechar os olhos e ignorar os inúmeros casos de mães que optam por abortar por conta própria e são hospitalizadas com seqüelas irreversíveis (muitas morrem). É um tema que merece ser debatido, sem paixões, baseando-se em fatos, deixando de lado os moralismos religiosos.

Biografias & Biógrafos

16:16 Autor: Alexandre Nonato Cat.: Atualidades Comentários (29980)

Autor: Vilas Boas, Sergio.
Editora: Summus.
Edição: 1.
Páginas: 184.
Formato: 14 cm x 21 cm.
Acabamento: brochura.

Um dos gêneros de leitura que mais cresce no Brasil, e muitos países, é a Biografia. Se antes eram obras quase sempre de historiadores, nas últimas décadas os jornalistas passaram a dominar este campo, provavelmente por que conseguiram popularizar e tornar este gênero mais vendável.

Sergio Vilas Boas, jornalista, chama atenção para o fato de que, mesmo o fato de várias biografias estarem entre os livros mais vendido no Brasil, isto ainda não despertou o interesse de pesquisadores. Ainda é pequeno o número de trabalhos que analisam o gênero, seja integrada a uma área do conhecimento humano ou enquanto uma disciplina independente. Por outro lado, o autor enfatiza que a biografia, na maioria das vezes, pode ser compreendida a partir de uma tríade de áreas, inseparáveis neste contexto: o Jornalismo, a História e a Literatura. O autor ainda acredita na necessidade de conhecimentos de outras áreas para biografar: Sociologia, Psicologia, Antropologia, entre outras.

“A venda de livros biográficos, entre 1995 e 1997, praticamente dobrou (99%), enquanto o total de títulos lançados neste período caiu 11% (213 títulos em 1995 para 190 em 1997)”. Até o momento é desconhecida a quantidade de obras de autores brasileiros sobre personalidades brasileiros.

Até meados do século XVIII, praticamente não existiam biografias com foco em uma única pessoa. Ela se referia amplamente a várias vidas, organizadas por função social ou profissão. As biografias mais antigas tinham critérios e valores diferentes do atuais, por exemplo, sobre “Alexandre, o Grande” os livros biográficos se preocupavam mais com os sinais dos céus no dia do seu nascimento do que com fontes documentais. De modo geral, a finalidade destas obras eram “edificar a imagem de alguém pela glória de Deus e com o aval dos autores”.

Se por um lado as biografias atuais tem o objetivo de contar sobre a vida de um indivíduo, humano, com qualidades e defeitos, no passado rejeitava-se as erupções emocionais, a descrição da vida íntimas, a narração da relação com o sexo oposto, os detalhes sobre o temperamento.

Para analisar o tema, Vilas Boas, buscou realizar leituras críticas de três biografias: Chatô, o reo do Brasil (Fernando Morais), Mauá – empresário do Império (Jorge Caldeira) e Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrincha (Ruy Castro). Seus personagens, Assis Chateaubriand, Irineu Evangelista de Souza e Mané Garrincha levaram seus respectivos autores a liderar as listas dos livros de não-ficção mais vendidos em novembro de 1995”.

Vilas Boas destaca a diferença na produção biográfica de personagens históricos. No caso de Jorge Caldeira, o trabalho resultou basicamente de pesquisas documentais com escassas fontes orais sobre a personalidade de Mauá. Já Ruy Castro contou com entrevistas de pessoas que conviveram com o jogador de futebol; Fernando Morais teve centenas de artigos escritos de Chatô para analisar nos jornais em que escreveu.

O autor critica as biografias que se autodenominam “definitivas” sobre seus personagens. Na verdade, para o jornalistas, as biografias são “definidoras”. “Biografia é o recorte de uma vida, não a vida. Dito de outro modo: ele é um arranjo de vidas a partir de fatos que levam 'a interpretação de uma vida...”.

O livro Biografias & Biógrafos, de Vilas Boas, é uma das pesquisas mais consistentes já lançadas a respeito de biografias e suas características singulares, fruto de uma dissertação de mestrado da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. É tão agradável de ser lido que nem parece texto acadêmico. É uma leitura obrigatória para quem se interessa por biografias. Vilas Boas aprofundou mais tarde o mesmo tema em sua tese de doutorado, lançando outro livro: Biografismo.

Vale a pena ser lida, pois bão apresenta uma visão ortodoxa, nem excessivamente teórica. Propõe uma visão transdiciplinar, incluindo associações com linhas da Psicologia (Freud e Jung) e reflexões sobre o autoconhecimento através das biografias. “Difícil acreditar que um biógrafo possa permanecer em companhia de seu personagem anos a fio, pesquisando-o, interpretando-o dia-a-dia e não ser tocado pela oportunidade de ampliar seu autoconhecimento (p.170)”. Ele enfatiza também a responsabilidade das biografias criarem empatia para transmitir “valores humanistas como ética, solidariedade, diversidade, igualdade, tolerância...”.

Aos praticantes da invéxis, o livro é muito interessante para desenvolver o senso crítico na leitura de biografias. Não se pode tomar tudo o que esteja numa biografia como verdade absoluta, mas uma  leitura da realidade sob à ótica do biógrafo. Ao confrontarmos várias biografias sobre uma mesma personalidade veremos que há pontos diferentes, ambíguos e até incoerentes. Muitas vezes, nenhuma está correta; outras, todas estão corretas, mesmo que tenham interpretações diferentes. Ser um leitor passivo de biografias dificulta análises mais profundas e realistas. Neste sentido, o livro contribui para desenvolver esta acuidade.

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